Friday, December 01, 2006

soledad e o barrio de pólvora

O acampamento foi erguido ao lado do senado mexicano
na chegada da marcha da APPO de Oaxaca até a capital.
Hoje, afora os refugiados do estado e as pessoas que
chegam para manifestar-se contra a posse de Calderón,
estao por ali pessoas de outros estados para
solidarizar-se com a Comuna. Soledad é uma delas, de
olhos e cabelos escuros, certamente ela passaria
despercebida nos metros lotados da capital.
Descendente do povo nautleca, Soledad veio de
Guerrero, um dos estados mais pobres e reprimidos do
México, vizinho a Oaxaca e igual na sua conjuntura.
Nao sao poucas - e Soledad é uma delas - as pessoas
apontando que ali está o próximo cenário da rebeldia
no México.

Guerrero também lembra Oaxaca na sua organizacao em
assembléias. A experiencia da "polícia comunitária" já
completa mais de 10 anos. Forma de defesa e aplicacao
da lei entre os povos originários, a polícia
comunitária dá outro tipo de punicao aos infratores e
também oferece uma defesa das comunidades contra a
repressao do exército. Pois as tropas oficiais entram
nas casas das famílias associando-as com a plantacao
de papoulas para o narcotrafico.

Ao redor do acampamento da APPO existem várias tendas
de livros. Por ironia pergunto por alguma obra sobre a
Comuna de Oaxaca, algo que ainda está para ser
escrito. Soledad é professora de história, uma das 50
mil funcionárias do ensino do sindicato nacional dos
trabalhadores da educacao, só que de outra secao. Ela
explica que a Comuna foi um divisor de águas pois "a
luta estava dispersa", ainda que sejam 23 anos de
organizacao e crítica aos sindicatos "vendidos".

A história nao termina aí. Lembramos juntos da
guerrilha formada no fim dos anos 60 pelo professor
campones Lucio Cabañas, uma revolta que se alimentava
de tortilhas. Uma revolta nao reconhecida pela
esquerda, que dizia que a eles faltava a presenca da
classe operária e a aplicacao do marxismo cientifico.
Cabañas respondia que aos pesquisadores faltava saber
viver nas montanhas e ser picado pelos mosquitos. "Ele
dizia que a fome nao era um conceito", lembra a
professora de historia. No dia seguinte, na rua,
encontro um desses amigos recentes que comenta o papel
dos professores nestes estados desfavorecidos, como
uma classe com muita representacao entre as
comunidades.

Seja os povos indígenas ou rurais, eles tomam suas
decisoes por assembléias, cujos delegados locais
reivindicam os direitos junto ao município. Os anciaos
sao os primeiros a ser consultados nas decisoes, o que
para ela vai contra a lógica do neoliberalismo. Sao os
mais velhos quem elegem o representante que vai levar
adiante as propostas da comunidade. "Isso nasceu na
montanha", ri, levando a minha com pessoas tao simples
entre montanhas azuis. "Guerra no Paraíso", é o nome
do livro que li sobre Lucio Cabañas.

"A classe política nao representa os interesses do
povo, nem da esquerda", diz. Soledad concorda que uma
pista da luta dos povos originários do México está em
2001, quando os 3 partidos todos juntos nao
reconheceram a autonomia indígena. Ela nao aparenta
desanimo, sentados em baixo de monumento onde amarram
as tendas dos acampamentos. Soledad cre que Oaxaca
abriu uma porta que nao se vai a fechar. "Como que se
abriu as brechas, como que Oaxaca é um baluarte da
luta, nao se va a acabar, ao contrário do passado que
nos repremíamos e nós dávamos um passo atrás, ainda
que com todos os mortos, eles demonstraram a
fortaleza. É como a ponta de lanca",
pensa.

Fica a foto do seu rosto, que nao pode ser tirada.

"A repressao nunca e normal, estamos na mesma posicao
de Oaxaca", diz Soledad.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home