Caca as bruxas? Estado de sítio? "Estado de excessao",
segundo a lei mexicana? Estado democrático de direito?
nenhum desses termos faz sentido neste momento em
Oaxaca. Sem utilizar um mecanismo legal, o governo de
Vicente Fox encerrou qualquer direito individual em
Oaxaca ao exigir que a polícia federal preventiva
(PFP) desmantele a resistencia da APPO e persiga
qualquer pessoa minimamente envolvida nas megamarchas
de protesto feitas ao longo de novembro. Certamente um
novembro histórico para a Comuna e para a luta dos
mexicanos.
Para ter uma idéia de como está a coisa por lá, mesmo
os jornalistas de meios de comunicacao empresariais
nao se arriscam a sair dos hotéis. Na rua está a
polícia, que tem utilizado lancagranadas e disparado
os gases lacrimogenios na direcao dos corpos das
pessoas. Na rua estao os paramilitares do PRI, estao
os "porros", que sao os infiltrados do partido no meio
universitário para arrumar confusao, e, finalmente,
gente armada e mercenária. Tudo isto acontece as
vésperas da entrega do mandato de Fox para Felipe
Calderón.
Na voz das pessoas que vao chegando refugiados para a
capital, o governo do PAN passou como num pulo da
alcunha de neoliberal para a de ultradireitista e
fascista. E com toda razao. Ativistas, membros ou
simpatizantes da APPO estao encurralados. Os membros
das comunidades do entorno nao podem descer para a
capital. Se alguém suspeito sai nas ruas, logo é
preso. Neste momento, no Distrito Federal, membros dos
meios de comunicacao independentes se articulam, por
meio de mensagens no celular, para saber a situacao
dos ativistas que seguem por lá, tentado ajudar na sua
fuga e monitorar os desaparecidos. No miolo da cidade
está a PFP, na serra o exército mexicano e na costa de
Oaxaca a marinha. Ontem a polícia saiu pelas ruas da
capital com uma lista de apreensao de 100
internacionalistas, como já havia feito com os
oaxaqueños membros do movimento. E isto implica entrar
nas casas das famílias sem autorizacao, apenas se
houver uma denúncia dos priístas.
Desde a sétima megamarcha realizada no sábado, dia 25,
a polícia resolveu partir para cima da populacao, com
o pretexto de estar respondendo ao incendio de predios
públicos. Porém, a APPO declara que os atos violentos
partiram justamente dos "porros", os infiltrados. Ou
seja, assim como o assassinato do camarógrafo
estadunidense Brad Will, no dia 27, justificou a
entrada da PFP na cidade, desde o dia 29 de outubro,
armando o estado de repressao, agora novamente
logrou-se mais um pretexto, quando houve a queima de
prédios públicos e confrontos com a polícia. A postura
da APPO segue sendo pelos atos pacíficos, o que até
mesmo gera discordancias entre o Conselho Estadual e
os que seguiam nas barricadas.
A última barricada, a de 5 Señores, nas imediacoes da
universidade, teve de ser abandonada ainda nesta
semana. Os estudantes e as poucas 100 pessoas que
ainda aguentavam o tranco corriam risco sério de vida.
A resistencia vai ter que se reinventar, pois ontem o
último espaco de resistencia da APPO, a Rádio
Universidad, considerada o coracao da resistencia, foi
devolvida para a reitoria da universidade, que a
protegia. A instituicao está cercada pela PFP, mas
ainda está imune a sua acao devido a autonomia deste
espaco de ensino. As pessoas sentem muito, pois a
rádio Universidad dava voz e uma populacao que, neste
momento, está incomunicada. Sobrou a rádio Ciudadana,
a servico dos priístas, fazendo denúncias e incitando
a queima de casas de membros do conselho estadual da
APPO, como Flávio Sosa.
Os números nao dizem tudo, mas sao reveladores. Na
verdade, eles nao dao conta dos relatos de torturas
que estao recebendo os presos, transferidos para a
prisao em outro estado, chamado Nayarit, uma prisao de
alta seguranća, 1300 quilometros longe de Oaxaca.
Até o momento, estamos falando de mais ou menos 400
detidos nos seis meses da Comuna - 179 deles só no fim
de semana e transferidos para o norte - 100 feridos,
50 desaparecidos e 20 mortos ao todo nos seis meses da
Comuna de Oaxaca.
Os números ganham carne e desespero quando amigos
contam a historia de Eliuth Amni Martinez
Sanchez, de 21 anos, que no dia 20 de novembro, quando
simplesmente caminhava com a familia por uma rua perto
do centro capitalino, foi detido pelos policiais que o
golpearam em várias partes do corpo, causando
hematomas e derrame nos olhos, perda de sensibilidade
nos dedos. Ou entao quando escuto que os prisoneiros
transferidos sao ameacados de ser jogados do alto dos
helicóteros no mar, algo semelhante ao que acontecia
durante a ditadura na Argentina. "A onda de terror vai
a arrastar a todos nós", exclama o conselheiro
estadual da APPO (um dos 262 constituídos ainda neste
mes), German Mendonza Nube.
O futuro é incerto, ainda mais agora que foi nomeado
para a futura secretaria de governo de Felipe Calderón
o ex-governador de Guadalajara, Franciso Ramírez
Acuña, conhecido pela perseguicao promovida em
Guadalajara (2004). Foram agredidos na época os
manifestantes contra a contra a Terceira Reuniao da
América Latina, Caribe e Uniao Européia.
Caminhando pelo acampamento da APPO instalado em
frente ao senado da República, no Distrito Federal,
acompanhado por Izabel, professora responsável pelo
contato com a imprensa, num certo momento ouso
perguntar qual a possibilidade de ir-me acompanhar os
acontecimentos em Oaxaca.
- "Se arrisca a tua vida", é a sua resposta, curta e
grossa.
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