Ele me recebe com paciencia e olheiras profundas. É
desses que aproximam o rosto do interlocutor para
convence-lo. Deixamos esfriando os pratos que a
cozinheira do acampamento prepara para nós, e nao nos
voltamos mais para a mesa. German Mendonza Nube foi o
primeiro preso político desde que a Comuna de Oaxaca
comecou. Liberado há pouco tempo, agora ele está no
acampamento da APPO no Distrito Federal. Esteve em
varias prisoes, internado numa área especial, decidada
aos militantes dos movimentos, ao lado de
narcotraficantes e qualquer outro prisioneiro. Por lá
encontrou lutadores sociais que já estao há cinco anos
na cadeia. Logo ele tratou de fazer de tudo para criar
uma rede de comunicacao via bilhetes, para que saísse
para fora das grades a notícia de onde e como ele
estava.
Mais do que contar a sua história, Nube prefere fazer
um balanco do movimento até aqui. Lamenta que a
repressao surge quando a Comuna está na sua melhor
forma. Nao só por ter atingido os seis meses
enfrentando a repressao, ganhando batalhas importantes
como a do dia 02 de novembro. O conselheiro, na
verdade, constantemente enfatiza o caráter do
movimento de construir uma forca política, de
organizacao de massas, já que, para ele, o poder ainda
nao está nas maos do povo neste estado.
"O estado já vivia um ambiente de ingovernabilidade,
mas tampouco há nesse momento um poder da APPO, apesar
do movimento ter acoes de exercicio de poder" pondera.
"No momento quando tivermos 10 mil assembléias
populares, vamos a ver que tanto poder temos",
pontualiza.
É interessante quando ele fala sobre a questao da
mobilidade. De como pequenas assembléias se formam e
se dissolvem neste momento do confronto, decidindo
rapidamente sobre a criacao de uma barricada, por
exemplo - heranca do modo das assembléias das
comunidades. Ele também fala da "polícia do
magistério", um corpo formado em defesa propria, para
tomar predios públicos como forma de rechacar aos
paralimitares. Este movimento, de acordo com Nube,
está dentro das resolucoes da APPO e é como se a
violencia nao fosse um pretexto, mas sim uma resposta
a um processo violento desencadeado pelas elites
quando o povo está organizado. Pois o propósito, nas
palavras de Nube, é a organizacao popular e a luta
politica de massas, "cuja forca é moral".
Ele cita o exemplo do EZLN na epoca do levante de 94.
Pegar em armas foi uma decisao extrema, que partiu de
uma demanda das bases zapatistas. "Uma revolucao
concreta, legítima e vinda do povo, se desenvolve a
partir da luta politica e, somente a partir disso, a
luta armada" E cita Lenin, aliás mais de uma vez
durante a conversa, para quem as armas - em condicoes
de miséria como a que vive o país - se disparam
sozinhas.
"Se o povo nao toma formas de organizacao que o
fortalecam, está perdido. Por isso dizemos que
acudimos como APPO porque surgimos como instrumento de
poder real, do povo para o povo. A APPO é uma nova
forca social que vai ajudar em uma mudanca profunda",
diz, quando lembra que a carne apimentada estava
esfriando. Enquanto isso, no acampamento se organizam
marchas e volantes para tentar deter a repressao.
Romper o cerco é uma expressao que já foi utilizada
noutras resistencias mexicanas, e volta agora com toda
a forca, nas palavras de tantos, agoniados, tendo
notícias da repressao aqui desde a capital. Penso em
tirar uma foto de Nube, mas desisto de pedi-la. O
movimento, afinal, nao é de bases e de todos?
Proletarizacao
Quem é a APPO? Ou, melhor, quem sao as pessoas que a
constituem, de quem agora me sinto distante, mesmo
estando na capital do país? Sao as organizacoes de
direitos indígenas que conheci na Outra Campanha, nas
reunioes preparatórias do ano passado? Suas demandas
eram por autonomia indígena, reconhecimento da sua
organizacao por usos e costumes, contra o corredor de
livre comércio que atravessaria o sul do México até o
Panamá (Plano Puebla Panamá).
Conto para Nube sobre a polemica que se colocou num
debate na USP, em Sao Paulo (dia 24), sobre quem
seriam as classes que formam a APPO. O sociólogo
argentino Juan Chingo, em consonancia com pessoas da
platéia, colocava a Comuna de Oaxaca como uma
renovacao das lutas de classe, agora com presenca dos
assalariados, até mesmo buscando um antagonismo com
Chiapas, que seria uma revolta puramente dos povos
originários. No entanto, Paulo Arantes, um dos
presentes na mesa, apontou justamente do contrário, ou
seja, que Oaxaca trata-se de luta de classes sem
classes industriais, longe do chao da fábrica, na
verdade organizada pelos excluídos num mundo onde a
producao muda os seus pólos e se desloca, por exemplo,
para a China.
Nube confirma que Oaxaca nao tem pólos de
desenvolvimento industrial e operário, raras excecoes.
Pelo menos 80 por cento da producao industrial do país
está concentrada no norte do país, também é bom
lembrar. "O desenvolvimento de uma classe operaria é
muito pequeno. Tem, entao, nascimento uma experiencia
nova, encabecada pela 22 secao do Sindicato de
Professores, que se organizam há 26 anos, ao mesmo
tempo que a situaçao na regiao chega a estourar",
descreve.
"Existe um programa único que é a queda de um tirano,
num primeiro momento, e um programa de luta, no
segundo. Os professores tem uma forca moral na
comunidade, nao surge do nada, pois, por isso o povo
sai em defesa dos professores. Dentro do movimento há
posicoes anarquistas, zapatistas, magonistas,
marxistas", explica.
Ao mesmo tempo, ele nomeia de proletarizacao um
processo no qual os camponeses rumam para as cidades
ou para outros países, na constante falta de um lugar.
Ele explica a idéia citando o dado de que mais de 3
por cento do Produto Interno Bruto (PIB) do país vem
dos dolares enviados pelos imigrantes.
Ele tempera a conversa com um pensamento mitico de que
um seculo é o suficiente para o povo mexicano se
rebelar. Foi assim em 1910, na revolucao mexicana pela
queda de Porfírio Dias, e um século antes, na luta
pela independencia de 1810. Agora novamente se ve uma
ebulicao que para ele é pre-revolucionaria.
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