Thursday, December 07, 2006

sobre a prisao de Flavio Sosa

Traicao. Foi assim como repercutiu a prisao de mais um dos conselheiros estatais da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca, Flávio Sosa Villavicencio, quem nos últimos tempos tornou-se uma das vozes da APPO conhecidas entre a opiniao pública. Villavicencio foi preso junto com o seu irmao, Horacio, e mais Ignácio Garcia Sosa e Marcelino Coache, todos representantes do movimento. Os dois últimos inclusive foram levados sem que a polícia tivesse ordem de detencao contra eles. Sobre Sosa, no entanto, até o momento pesam 5 acusacoes de uma soma de 44 contra os 260 conselheiros da assembléia oaxaquenha.

A acao da polícia recebeu o aplauso dos dois partidos de direita, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) e o Partido de Acao Nacional (PAN). Tudo aconteceu no dia 04 de dezembro, no fim da tarde, e pegou a todos de surpresa, depois de Sosa ter participado de uma entrevista coletiva. Isto porque estava marcada para o dia seguinte (05) uma reuniao de diálogo entre a APPO e a Secretaria de Governacao, que em realidade nao ofereceu solucoes para as demandas deste tecido de organizacoes socias. O novo secretário, Francisco Ramirez Acuña, é conhecido justamente pela repressao aos movimentos. E o governo de Felipe Calderón opta logo no seu início pela política de “mano dura”, e ainda enterra o que havia dito sobre dialogar com todos os setores sociais, durante a sua posse, há cinco dias atrás.

A política de repressao do governo Calderón segue a linha deixada pelo seu antecessor, Vicente Fox, e tem contornos diferentes daquela organizada por outros governos na história recente mexicana. A opiniao é do editor do jornal La Jornada, Luiz Hernández Navarro, entrevistado pelo Brasil de Fato, para quem o país já nao está vivendo a conhecida “guerra de baixa intensidade”, aplicada, por exemplo, com táticas de efeito moral contra as organizacoes populares, no sudeste do país. Agora o que está em jogo é promover o medo e o terror para desmantelar o movimento. A reportagem do Brasil de Fato veio ao México para acompanhar a experiencia organizativa da APPO, mas acabou topando com um cenário de repressao e de um movimento cujos conselheiros estao detidos, escondidos ou baixo ameaca.

A perseguicao aos líderes parte de uma compreensao por parte do poder de que, desta forma, reprimindo o que seriam os representantes populares, estaria assim cortando a cabeca do movimento. Mas na realidade o desafio atual da APPO é mostrar aquilo que opinam os que vivenciaram os mais de seis meses da comuna: as bases do movimento dirigem a si próprias, algo ainda nao absorvido pela classe política mexicana. “O governo de Fox nunca decifrou uma nova conflitiva social, uma nova subjetividade, nunca entedeu o que tem diante de si, por isso Calderón inicia com a “mano dura”, afirma Navarro.

Tal fato evoca o que ocorreu em fevereiro de 95, durante o governo de Ernesto Zedillo (do PRI). Foi em meio a um processo de negociacao com a dirigencia do exército zapatista, quando Zedillo simplesmente armou a arapuca e ordenou a apreensao dos líderes do movimento. Agora é o mesmo Zedillo um dos organizadores da política de Felipe Calderón contra os movimentos sociais, como aponta Navarro. Outra comparacao corrente entre os mexicanos é feita com a perseguicao do estado maquinada contra estudantes no final dos anos 60.

Rogelio Vargas pertence à comissao de imprensa da APPO. Ele estava presente no plantao da APPO no dia seguinte à detencao de Sosa. Nas suas palavras, a Comuna de Oaxaca contabilizou até agora uma baixa de 300 presos, 20 assassinatos (certamente por grupos paramilitares atuando na regiao) e mais 50 desaparecidos. “Flávio é o primeiro preso da APPO do período Calderón”, comenta. E descreve: “Há bandos de paramilitares detendo as pessoas casa por casa, torturando, fazendo uma repressao direta, contra o estado de direito”, diz o porta-voz.

Intertítulo. Quem é Flavio Sosa?

Nos últimos tempos o oaxaquenho Flavio Sosa Villavicencio ficou conhecido pelas entrevistas para os meios de comunicacao, na qual traduziu a ideologia da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca. Sosa - segundo informacao dos jornais mexicanos à esquerda e à direita – é militante do PRD (Partido da Revolucao Democrática), um dos fundadores do partido, pelo qual já chegou a ser deputado.
Nas eleicoes de 2000, renunciou ao seu cargo no PRD e resolveu ingressar nas fileiras do entao candidato e futuro presidente Vicente Fox, do neoliberal Partido de Acao Nacional (PAN). Em 2004, junto com o Movimento Unificador de Lucha Triqui (Mult), formou o partido político local Unidad Popular, partido que lancou o candidato e ex senador perredista Héctor Sánchez López, adversário de Ulises Ruiz nas eleicoes. Depois de se desligar da Unidade Popular, Villavicencio voltou a solicitar a sua admissao no PRD en 2005 e foi designado como conselheiro nacional. Em junho de 2006, com outras organizacoes civis, sociais, camponesas e sindicatos, integrou a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO). Além de seu irmao Horácio , seu irmao Erick e o primo Jorge Sosa Campos estao presos.

Intertítulo. Polícia vigia o plantao da APPO no centro da Cidade do México

No dia 4 de dezembro, à noite, havia no ar a ameaca de que as tropas oficiais fechassem a única rua de saída do plantao da APPO e prendessem os outros membros do movimento que estavam acampados por ali.

Logo ativistas com quem estive em contato na capital armaram uma estratégia para retirar os militantes em meio ao cerco policial que vasculhava o centro da cidade, ainda que os policiais estivessem dispersos pelas ruas e nao formassem um bloco.

O carro onde estávamos foi parado pelo menos duas vezes. As ruas do centro da cidade estavam com pilhas de lixo por toda a parte. A cidade, gigantesca, naquela hora ficou pequena. Com dois companheiros já retirados do plantao e dentro do carro, a questao era: onde havia um lugar seguro para levá-los?

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