primeiro relato desde Oaxaca
Hoje, dia 06 de dezembro, finalmente chego até a cidade Oaxaca de Juaréz. Melhor dizendo, a cidade da Comuna de Oaxaca, como deverá ser lembrada por muito tempo. Chego com uma boa dose de receio, acompanhado de um jornalista estadunidense. Contamos com o fato de que temos o visto oficial de jornalista, neste momento no qual os ativistas dos meios independentes, rádios livres e coletivos sao agredidos pela polícia. Se é que nestas horas existe alguma regra. No momento dos confrontos, todos dizem, a polícia simplesmente avanca sobre todos.
Vividos nove dias na Cidade do México, a indiferenca da sociedade civil em relacao ao estado de sìtio em Oaxaca é mais sufocante do que a fumaca que paira no ar da capital. Além do que, com a prisao recente dos dirigentes da APPO e a remocao dos presos de Oaxaca para um cárcere mais de mil quilometros distante, a repressao pode estar se estendendo os bracos para fora de Oaxaca.
Chegamos de madrugada, tudo ainda um tanto escuro, mas o suficiente para perceber a grande quantidade de táxis, cafés e hotéis típicos de uma cidade colonial e turística. O taxista tenta nos animar, os dois supostos turistas: - Já deram um jeito nas pessoas más, agora está tudo tranquilo”, ele comenta.
Logo que saímos para tomar um café, topamos com um silencio incomodo nas ruas por parte das pessoas e dos policiais que só nos olham se for discretamente. A fileira de casas tem as paredes borradas, na tentativa de apagar o que foi escrito nas paredes da cidade. A rua Alcalá foi uma das principais arenas das batalhas entre a APPO e a Polícia Federal Preventiva. Numa das pixacoes restou apenas um “por que” escrito. A praca, no zócalo, onde antes havia um acampamento dos professores, está ocupada por cabanas da polícia federal preventiva.
Pela rua Alcalá chegamos até a Igreja de Santo Domingo de Guzmán. As calcadas estao esburacadas, quase como dentes expostos, pois forneceram municao para os carrinhos de supermercado que levavam as pedras de municao para as barricadas. Faz sol, o céu está demasiadamente azul e a polícia toma conta do centro da cidade. Qualquer turista pode chegar por aqui sem nem imaginar o que aconteceu e ainda dar uma olhada no jardim de flores plantada há pouco pelos priístas, no zócalo.
Meu amigo estadunidense me explica que o pretexto da PFP de perseguir as pessoas por causa da queima de prédios públicos, é mais uma conversa. Pois justamente na rua Alcalá os cerca de 141 manifestantes foram encurralados, presos e torturados pela polícia. Apenas mais tarde houve a queima de prédios públicos, por aqueles que escaparam e pelos inflitrados nas barricadas.
Visito uma organizacao de direitos humanos cujo nome é melhor nao revelar, das poucas que atua neste momento no qual os direitos individuais foram cacados. Contam-me que a aparente normalidade do centro da cidade nada diz da perseguicao promovida nas “colonias”, algo como a periferia ao redor de Oaxaca. Ali vivem os povos indígenas que tomaram parte na Comuna com pedras, organizacao popular e tortilhas.
“As pessoas das colonias estao assustadas”, me diz um jovem da organizacao, seguramente ele é espanhol, numa história que também contou seriamente com o apoio dos internacionalistas, que agora estao escondidos. “Vizinhos denunciam vizinhos de terem participado das barricadas”, completa o espanhol.
O cerco está armado e ele é também é invisível como o medo. Nao consigo tirar fotos, tampouco conversar com as pessoas. Talvez a oitava megamarcha seja o termometro para verificarmos se o terrorismo policial surtiu efeito entre as bases do movimento. Mas como romper este cerco tao real e tao silencioso?
desde Oaxaca de Juarez

0 Comments:
Post a Comment
<< Home