Friday, December 08, 2006

relato da repressao

- Voce conhece alguém da APPO, nao conhece?

Esta é a pergunta que Jose Luiz Miguel Lopez, dono de um lava-carros, um oaxaqueño de um bairro do subúrbio, ouviu de supostos elementos da agencia federal de investigacao, enquanto recebia golpes na altura da costela. A mesma pergunta está ecoando em outras casas invadidas por policiais, nas chamadas “colonias” ao redor de Oaxaca.

Miguel Lopez é um de muitos. Mas conheci sua história quando seus irmaos foram até a oficina do centro de direitos humanos onde tenho contatos. Eles contaram que um carro negro e sem placa parou em frente à oficina dele, quatro homens ao que parece vestidos com um jaleco oficial perguntaram o preco do servico, logo empurrando-no para o carro e o prenderam. A acusacao foi de roubo.

Há outros relatos acontecendo que mostram que a policia federal tem lancado mao de métodos assim: uma acusacao banal para justificar a prisao da pessoa e técnicas de tortura para criar uma confissao que tire a legitimidade da APPO. O estado mostra a sua verdadeira face. Nas páginas do jornal do dia 7, Arturo Reyes García, simpatizante do movimento como tantos cidadaos, foi obrigado a dizer em frente às cameras da polícia que havia recebido 1000 pesos mexicanos para figurar nas agora extintas barricadas.

Entre as prisoes efetuadas no dia 25 de novembro, as pessoas lembram de uma senhora de 60 anos, conduzida direto para a cadeia, ensanguentada. Lembram também da “comandante do microfone”, a doutora Bertha, que dia e noite conduziu a rádio Universidad e ganhou o carinho das pessoas. Ela quem dizia, com seu bom humor e fala pausada: “Por que eu vou me preocupar, se eles vao invadir mesmo, se eles vao me golpear mesmo?” Bertha neste momento segue escondida.

Neste momento quando advogados locais se reúnem para tracar uma estratégia de defesa para os presos de consciencia, tentando centralizar os números e nomes que se confundem, o ponto de partida é questionar o modo como as autoridades estao operando ao invés das acusacoes em si. É o que me explica Juan (nome fictício), advogado do centro de direitos humanos onde estou. Pois agora nao existe estado de direito e uma pessoa é detida sem qualquer ordem de apreensao. As detencoes nao tem justificativa e contestam o princípio de que todos sao inocentes até que se prove o contrário.

“A apreensao está acontecendo de modo clandestino, demasiado premeditada, com o uso de armas de grosso calibre e violencia”, comenta Juan, que veste uma camisa do EZLN debaixo do terno. Mais de 300 pessoas estao processadas neste momento em Oaxaca. Outros 150 presos foram tranferidos para a prisao de Nayarit, noutro estado, o que torna o apoio judicial mais difícil.

O judiciário está partidarizado. A nível governamental o governo de Felipe Calderón optou pela política de “mano dura”, ao passo que no estado de Oaxaca prevalece a relacao de submissao dos juízes às políticas coronelistas do Partido Revolucionário Institucional (PRI), partido do governador Ulises Ruiz Ortiz, cuja demanda pela sua saída é a razao maior do conflito.

“A nível local o poder judiciário atua como um perseguidor político, quando por lei nao pode haver dependencia ou submissao entre os poderes, que sao independentes, o que aqui em Oaxaca nao está sendo cumprido”, afirma Juan.

Ouvindo os dois irmaos de Miguel Lopez, imagino o que deve ser a opiniao de muita gente que simpatizou com o movimento, torceu ou apoiou a Comuna de Oaxaca e as barricadas. “É uma guerra psicológica contra os professores, pois nas escolas nao há garantia nenhuma, nem para eles, nem para os alunos, de retomar as aulas”, afirmam os dois irmaos.

Se pergunto pelas pessoas nas colonias, como estao se organizando, que estao fazendo para a marcha de domingo, apenas obtenho como resposta: estao com medo. O medo, como escreveu Eduardo Galeano, o principal inimigo.

A oitava Megamarcha

Vai ser num domingo, decisivo para a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca. Uma mobilizacao pequena e sem corpo pode sinalizar que a política de Felipe Calderón surtiu efeito e calou o movimento. Ofereceria também mais espaco para que a polícia federal preventiva e a Agencia de Investigacao se sintam a vontade para seguir “catando” as pessoas nas suas casas, como reza a expressao local.

Na capital do país, uma comissao formada por intelectuais mexicanos do porte do escritor Carlos Montemayor, organizada sob o nome de 25 de novembro (em referencia ao dia quando a perseguicao chegou ao auge), prometeu presenca na caminhada pacífica pelas ruas de Oaxaca, para romper o cerco de silencio. Políticos da Frente Ampla Progressista de igual modo vao estar na marcha. A Frente é o braco parlamentar que apoia ao governo paralelo encabecado por Andrés Manuel López Obrador (AMLO). É formado pelos partidos PRD, PT e Convergencia.

AMLO, após perder as eleicoes, no que é considerada a segunda fraude eleitoral na história recente mexicana, certamente nao vai estar em Oaxaca. O seu chamado governo legítimo está respaldado na constituicao do país e entre as massas. Mas existe um limite claro para o movimento de AMLO, e apoiar a um movimento como o de Oaxaca tem um peso político com o qual ele nao pode arcar, por possuir um pé no parlamento.

De resto o que se sabe é que os 24 mil professores dos Vales Centrais de Oaxaca prometem retomar a greve.

- “Se as pessoas nao saem na rua, a situacao vai ficar pior”, é o comentário corrente.

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