Saturday, December 09, 2006

da cosmovisao

para gastao,

As barricadas da Comuna de Oaxaca, levantadas nas colonias da periferia ou nas comunidades mais distantes, para barrar o ataque policial e paramilitar, para barrar a história de repressao do dinheiro contra os povos índios, foram a hora e a vez dos descendentes dos povos índios que vivem nos arredores da cidade.
Foram eles – ao lado de outras forcas populares – quem criaram e literalmente alimentaram as barricadas, com suas tortilhas e café oaxaquenho.
Assim a APPO ganhava de heranca as tradicoes indígenas. O zapoteco Nicéforo Umbieta reivindica a visao indígena na linha política da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca, valoriza a diversidade, mas insiste que o movimento nao pode limitar-se ao marxismo/leninismo dos dirigentes da Secao 22 do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Educacao.
A conexao entre o levante de hoje e os povos indígenas remonta aos anos 80, quando colonias ao redor de Oaxaca eram formadas. Culpa da competicao entre os produtos camponeses e os alimentos e mercadorias que chegavam dos EUA. O recurso entao era olhar para o norte. Gente das 16 etnias indígenas do estado (das 60 existentes em todo o país) podem ser encontradas vivendo no grande irmao do norte. Quando regressavam, a casa na comunidade já nao era a mesma, os migrantes partem em busca dos parentes na periferia das cidades. E a cultura viajava junto na maleta. “Nao só migraram as pessoas e sim as culturas, a producao e a ajuda mútua”, ele descreve.
Nao é a primeira vez que escuto a palavra mosaico para descrever genese da luta em Oaxaca. Este senhor indígena fala das tradicoes comunitárias como a guelaguetza, uma festa que recorda a troca de alimentos nos mercados segundo a necessidade – algo bem anterior à chegada da promessa do ouro e mais tarde do dinheiro. “Cada pessoa responde as festas desde o seu rincao”, onde se concentra cada etnia. A verdade é que o centro histórico e a catedral de Oaxaca nao dizem nada da essencia do povo, que está ali, fora da cidade.
Comunismo é uma prática do seu povo antes que nada, assim ele pensa. “Os marxistas é quem tem de aprender com a gente. Pois os professores falam de socialismo, mas nao se utilizam de exemplos concretos, entao nao é espontaneo”, ele reflete.
É algo superior a uma consciencia de luta de classes, é algo mais antigo, diz, e nao pode haver dualismo, sujeito e objeto, numa cultura onde o máximo valor seja o outro, o “indivíduo comunitário”, nas suas palavras, sempre muito bem medidas e adornadas, à la Guimaraes Rosa. “As pessoas na comunidade sao muito orgulhosas, por mais que sejam pequenas, sao únicas, e estao seguras de que ali tem um super valor”, fala.
O velho indígena diz que a luta segue no mesmo pé que a resistencia contra a invasao espanhola, contra quem, aliás, o povo zapoteco permitia o transito pela regiao, mas nao se deixou dominar por eles.
Entre os 70 mil professores da Secao 22, ele pensa que a maioria sao indígenas, o que se verifica pelos seus sobrenomes, mas ele faz a ressalva de que a educacao que receberam ainda esteve sob o molde capitalista, o que quer dizer: vertical.
O Forum Indígena, do qual participou recentemente, é o espaco para que as organizacoes indígenas que conformam o movimento sigam o seu caminhar a seu tempo e modo, e a tendencia é seguir com os congressos e encontros filosóficos para ensinar o modo de pensar dos povos originários e o conceito de comunalidade. Para que o símbolo da APPO, o estigmatizado punho fechado, nao prevaleca sobre o símbolo do bastao de mando das comunidades.
“Fazemos a recuperacao desta raiz pela poesia. Para recuperar a nós mesmos”, comenta.
E existe possibilidade de que essas duas linhas da APPO sigam juntas?, pergunto eu.
Nicéforo conta a história de um professor da comunidade, que mesmo sendo ateu, participava da mística dos cultos.

1 Comments:

At 8:08 AM, Blogger elisandro said...

Salve Pedro!
Essa busca pelo olhar verdadeiro, passa então pelo filtro da mente entre os contrastes do grande e o pequeno, o forte e o fraco, o ateu e o mistico, te leva pelo caminho de um mundo mais justo. Boa caminhada!
Sorte e força.

 

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