de quem não calçou sapatos

Estive por apenas um fim de semana na região dos povos indígenas mixtecos, duas horas longe da capital de Oaxaca, passadas montanhas áridas, de um solo pedregoso e sem vida. Foram só dois dias, mas o necessário para saber que a capital foi só mais um espaço de luta da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca. Isto porque houveram outras sete regiões e 33 palácios de governo tomados pelos oaxaquenhos, até que a repressão do dia 25 de novembro reverberou em todo o estado.
Na área mixteca, a vida segue o que a geografia manda. O solo desértico faz com que 7 em cada 10 mixtecos migrem para os EUA. Ao todo são 500 mil oaxaquenhos vivendo naquele país. A economia local então se movimenta com as remessas do norte. Mesmo nos pequenos povoados, à noite, as pessoas fazem filas para tirar o dinheiro do mês nas agências de remessa. De dia o comércio local está dominado pelos chamados mestiços, ou ladinos, a classe que explora historicamente os indígenas. Se as casas de barro ao redor não tem luz, por outro lado o centro do município de Huajuapan, a cidade principal, hoje se assemelha a um mercado de produtos chineses.
Fui recebido por Barbara no pequeno terminal de caminhonetes, puxado pelo braço e logo levado a um táxi incomum, um dos 70 pertencentes a uma cooperativa que apoia a APPO, então não havia perigo de conversarmos. Noutros lugares sim, porque Barbara possui uma ordem de detenção, ela e outros companheiros das 5 organizações políticas que compõe a APPO regional. A cooperativa de táxis foi uma solução para evitar o monopólio dos chamados "caciques", ligados ao Partido Revolucionário Institucional (PRI), sobre o transporte. As organizações sociais fizeram a aliança com os trabalhadores e compraram os carros. O motorista que nos leva, como não podia deixar de ser, é um antigo imigrante que voltou à cidade e estava desempregado.
Pelo menos 32 presos políticos recentes eram mixtecos, embora haja outras famílias reclamando pelos seus parentes, mas elas não constam nos números oficiais. Apesar de tudo, Bárbara e seu companheiro, Mario, deixaram os filhos num lugar a salvo e resolveram ficar. A antiga casa era rodeada por bases do governador Ulises Ruiz Ortiz (PRI) e teve que ser abandonada. No escritório novo, em meio a obras de Paulo Freire, as coisas estavam todas esparramadas. Ambos se mostravam desapontados com outras organizações por não ter feito o mesmo, e ficado, apesar da clandestinidade.
À noite, no silêncio das ruas, visitamos a casa de um adolescente que a partir do dia 25 de novembro vivia sozinho. Seus pais são professores da Seção XXII. Naquele dia, eles viajaram à capital para participar da megamarcha organizada pelo movimento, mas acabaram presos, levados a um cárcere 1000 quilômetros longe dali. Enquanto esperava pela absolvição dos pais, o jovem passou por um processo semelhante ao de todo oaxaquenho nos últimos meses: de repente se viu trazido ao centro do conflito que também o ensinou a se mobilizar.
Destruir o neoliberalismo por dentro
Barbara e a organização na qual atua são aderentes da Outra Campanha, impulsionada em 2005 pelos zapatistas (http://enlacezapatista.ezln.org.mx/). Seguem o pensamento da Sexta Declaração da Selva Lacandona como se o documento fosse deles mesmos. Receberam o Subcomandante Marcos na passagem dele pela região. Barbara e o marido buscam recuperar o pensamento indígena das comunidades, falam de autonomia para combater o capitalismo, criando mecanismos para implodi-lo por dentro. Os mecanismos seriam as assembléias populares, a força moral da convocatória das marchas, o apego à terra e o rechaço ao alimento industrializado.
O estudante de Direito e porta-voz da APPO, Castro López, também mixteco de origem, aponta o poder alternativo e popular que a APPO vem fermentando ao longo dos sete meses de existência: são as festas tradicionais, antes monopolizadas pela indústria do turismo local, que ressurgem agora com o timbre da APPO. "Há um poder do povo que está sendo construído, que não é formal, mas dual. Ele se reflete no fazer o seu próprio Dia de Reis, a Noche de Rábamos (festa natalina), a Guelaguetza (celebração da troca)... Enquanto o governo diz que o poder sou eu, ele fala de um povo de Oaxaca, mas fala somente dos empresários, velando apenas pelo poder econômico", acusa.
De todas as formas, o poder oficial há muito tempo estava invisível para a população. Como forma de evitar a reivindicação social, Ulises Ruiz Ortiz, logo que foi eleito, em 2004, havia transferido seu palácio de governo da capital para o município de Santa Maria Coyotepec, e tinha feito o mesmo com outros símbolos do poder.
O pensamento de Emiliano Zapata (1879-1919)
Emiliano Zapata é um símbolo vivo entre as organizações nos estados ao sul do México. Ele que tomou o poder com as armas por duas vezes, mas retornou aos acampamentos guerrilheiros, até que se cumprisse o Plano de Ayala de 1911 e a terra fosse garantida para os camponeses. Declarou guerra a quatro ditos presidentes do México. Conta-se que durante a primeira entrada de Zapata na Cidade do México, em 1914, o general Francisco Villa, ofereceu a cadeira presidencial a Zapata, quem teria dito que o melhor a fazer era queimá-la.
Barbara defende que uma análise da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca que não tome em conta o pensamento indígena, zapatista e autonomista, não reflete a realidade. Sua organização, por exemplo, definitivamente não acredita na via eleitoral como mecanismo de mudança. "As instituições não têm credibilidade no México", diz. Apesar de já ter treinado nas montanhas e apesar de que nas aldeias "para cervejas e armas, sempre há", a via armada seria o último recurso, somente em defesa própria. A aposta de fato vai na mobilização das pessoas.
A ideologia de Barbara e Mario é baseada na negação. O consumo do milho transgênico é recusado para reafirmar o milho amassado nas comunidades – a base da alimentação mexicana. Os povos não são consumistas e dominam uma outra relação com o tempo. Uma das formas de descrever a autonomia dos povos originários foi dada por uma senhora indígena, quem disse que possuindo a terra sua comunidade não se tornava escrava do dinheiro.
A senhora caminhava debaixo de um sol forte, passou por nós enquanto estávamos escondidos entre uma lanchonete ou outra, evitando caminhar pelo centro da cidade. Foi Barbara quem apontou:
Está vendo os pés daquela senhora?
Era como se o pé tivesse enrolado em várias camadas.
- São pés de quem nunca calçou um sapato, disse.

2 Comments:
Parabéns, hermano. Puro jornalismo "desganchado", comprometido com aquilo que se acredita. Assim deve ser.
Lendo teu texto, me ocorreu que estaremos perdendo tempo se não organizarmos logo uma Guelaguetza em alguma praça de Curitiba! Que te parece?
:D
Domingo combinamos os detalhes.
abraços sem partidas
abração, pedro.
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