terror
Como pode o terror se ocultar
Atrás de uma tela azul
Atrás das casas da colonia e das montanhas ainda mais ancestrais?
Como pode o terror agir em tao silencio?
Alimentado de um cerco que nao vemos.
Como pode o terror dar lugar ao turismo,
Viver ali, aceso
Debaixo de um oceano distraído?
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Aqui está o link onde estao saindo as minhas reportagens desde Oaxaca de Juárez.
http://www.brasildefato.com.br:8080/v01/agencia/especiais/especial.2006-12-12.4532728076
A tarefa de repórter consome - e também amplia, vamos – o meu tempo nestas terras. Outra vez me coloco no olho do furacao e, por um lado, estou em contato com relatos incríveis e as melhores pessoas que conheci, por outro, o jornalismo nao me satisfaz como linguagem. Mas, enfim, talvez transformar tudo isso em literatura seja um trabalho para quando voltar. Por enquanto, há uma urgencia de viver e de informar sobre a repressao fria e calculista que está acontecendo neste país.
Meu ofício se resume a escrita, ao que os ouvidos escutam e o papel tenta traduzir. Porque o meu gravador se rompeu no chao, a camera digital novamente me pregou uma peça e apagou as fotos, o que me convence que os deuses desta terra querem que a experiencia seja na pele mesmo, impossível, impassível, para ser reproduzida como imagem. Muito veloz para tanto. “Para ler um video”, assim vai sendo.
Estou no norte do país agora, na cidade de Querétaro, provando um pouco o outro lado deste México dividido entre Norte e Sul, o norte de cara para a gringolandia, para a exploracao da fronteira e das fábricas maquiladoras. O sul, indígena e rebelde.
Na verdade estou na casa de companheiros com quem reparti noites e dias na época que vivia em Chiapas, irmaos de uma coisa que eu nao saberia precisar o que é, algo mais além das correntes habituais: sangue, familia, infancia. O que me une a eles é um outro istmo, um corte muito mais profundo.
Um reencontro estremecedor, só podia dar nisso um reencontro entre espanhóis, mexicanos e brasileiros, quase um ano depois. Elvi, falando a cento e cinquenta por hora, com a dureza e franqueza e alegria de sempre. Me contando porque resolveu deixar as comunidades em Chiapas, comparando com a mobilizacao em Oaxaca, que, para ela, é muito mais abrangente. Eu, da minha parte, sigo com um pé atrás, ao menos nao gosto de comparar a experiencia dos zapatistas com a APPO.
Desde aqui posso mirar tudo de longe, pensar sobre as primeiras duas semanas em Oaxaca e projetar as duas próximas, já que prolonguei por mais duas semanas o meu visto, um pecado que eu sabia que ia cometer. Os primeiros dias ao lado de uma organizacao de direitos humanos, formada por um pessoal de outros estados do México que vieram para dar uma mao. De manha até de madrugada numa entrega que, a pesar de todos os relatos duros das famílias que estamos escutando, está longe do fatalismo. Tem a ver com uma energia modificadora, a partir de um vácuo que sentimos agora e que nao nos permite vestir papéis sociais ou egolatria e nos compele a adotar o apoio mútuo.

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